

O que é o projeto de Zero a Um?
São relatos de alguns momentos do dia a dia da Aurora e do Davi no período de zero a um ano de idade, em permanente diálogo com as teorias sobre o desenvolvimento infantil na primeira infância. De junho de 2023 a junho de 2024 o Coletivo Cais se debruçou na análise de registros pessoais, fotográficos, vídeos e uma série de conversas entre Ana Celina, Daisy e Sandra sobre essa fase e a delícia de estar neste lugar de avó e se encantar diariamente com o bebê.
“Quantos movimentos… era um tal de levantar pernas, braços, bumbum. Uma dificuldade para tirar a segunda mão do chão e se equilibrar para sentar com o corpinho reto sem nenhum apoio. Oh, como foi importante! Que delícia, quando a gente se encontrava, aqueles olhinhos sorrindo e os braços que já se jogavam para nós, chamando Vovó.” (Coletivo Cais)
O corpo do bebê, fala!
Quanta graça nos movimentos involuntários, fossem dormindo ou acordados. Quantos sorrisos e agrados arrancavam da vovó, um simples mover de braços e pernas que mais pareciam orquestrados!
O olhar precede o movimento consciente. E como olham tudo! Olhar coisas, pessoas e um olhar mais que especial para as mãos e para o vai e vem de quem cuida deles. O colocar na boca, mãos, pés e chupar os dedinhos. Os barulhinhos que essa ação produz, também são dignos de registro.
Observá-los se desenvolvendo no ‘conjunto da obra’: as variações de expressão, os balbucios, os olhares atentos às conversas e barulhos e o mexe, remexe dos seus corpos. Somente a convivência com esses bebês, pôde revelar a grandeza desses pequenos movimentos- eles são conquistas fundamentais para o desenvolvimento integral.
À medida que os dias foram passando muito se sabia um do outro (o bebê conhecendo a vovó e a vovó conhecendo mais o bebê) e, com o que se podia contar na construção da rotina: música para dançar, passeio pela casa que faz a cabeça virar de um lado para outro à procura de novidades, um chão para espreguiçar, levantar mãos e pernas e ver tudo de outra perspectiva.
Aurora e Davi foram cedo para o chão, lugar bem sabido por nós que possibilitaria as melhores oportunidades para rolar, apoiar pernas e braços até conseguir virar de bruços. Ufa, e como isso é trabalhoso para o bebê, mas também muito prazeroso!
Uma vez de bruços, começam as peripécias e experimentos da força dos seus braços, pernas e cabeça. Seguiram-se muitas tentativas de se apoiarem nos membros, se esticando daqui, girando dali até conseguirem com bastante êxito rastejar… sentar… ficar em pé com apoio… dançar… engatinhar…
Não é a ordem do que fará primeiro que importa nesse longo processo, mas as experiências advindas das tentativas e acertos. O mais difícil para nós adultos, é esperar, esperar e esperar o dia em que sairá andando. E enquanto esperamos, é hora de inventar contextos lúdicos, ensinar brincadeiras e selecionar materiais e objetos para cada fase.
Como identificamos essas etapas? Diante de uma situação ou objeto novo, os bebês exploram até dominar o que foi proposto. Como acompanhamos de pertinho, tínhamos a sutileza em perceber o momento de um novo desafio.
Ir para a rua. Ah, como era bom e diferente! Os passeios eram permeados por conversas, paradas para apreciar as novidades que chegavam aos olhos e ouvidos e faziam aquele corpinho se remexer e virar para todos os lados ao mesmo tempo, fosse no colo ou no carrinho, tudo chamava a atenção, árvores, avião, motos, animais, pessoas e uma alegria explícita ao encontrar uma criança.
As cantigas que desde o nascimento embalavam os pequenos, passaram a ter gestos e as coreografias de domínio público: pirulito que bate bate…, roda roda roda, pé pé pé, roda roda roda caranguejo peixe é!!! Quanta saliva nos primeiros é, é, e logo o pé, pé era muito mais perceptível! O agacha/levanta segurando no sofá incentivado pela fala, Vivo/Morto, foi motivo de muita risada.
A brincadeira de se esconder sempre acompanhada de panos e a risada larga e encantada diante da expressão Achou! Isso demonstrava que estavam entendendo a brincadeira que evoluia conforme se tornavam mais habilidosos, escondendo o próprio rosto e aguardando o famoso Achou! por quem estivesse por perto.
O conforto do corpo da vovó para todos os cochilos. Quanto prazer nos acalantos dentro de um abraço quentinho. Momentos importantes de contato físico que promovem segurança, aconchego, bem estar físico e emocional.
O primeiro ano do Davi e da Aurora foi recheado de todas essas expressões corporais, que são tão importantes para que o corpo infantil se expresse livremente sendo, cada vez mais, coordenadas pelo pensamento.

E agora o que fazer?
Bebês precisam de incentivo para ampliar seus movimentos? Quando e como intervir? E o que não fazer?
A preferência pelo chão para estar com os bebês e brincar deu mais mobilidade de muitas formas como o rolar, rastejar, apoiar braços e pernas, sentar…. A escolha de tatames e edredons foi motivo de boas conversas em família e muita observação para que não tivesse apelo visual, não fosse escorregadio, nem mole demais e de tamanho adequado.
Assim também seguiu-se em relação ao calçado: com ou sem? Por aqui a opção foi sem.
O contato com elementos da natureza sempre estiveram presentes, plantas, folhas, areia, terra, pedras, cascalhos, sementes, muitas andanças e brincadeiras ao ar livre. Estar descalço, tocar, sentir texturas, cheiros e temperaturas diferentes geraram vivências sensoriais bem importantes, aguçando o desejo de se mover por entre esses elementos.
Ouça o que o corpo do bebê está falando, porque ele vai sim dizer o que quer. Observe, aproveite cada momento, não tenha pressa para que ele faça o que ainda não está maduro para fazer:
Quanto menos elaborados, industrializados e de plásticos os brinquedos forem, melhor! Por aqui usamos fitas coloridas, pedaços de tecidos, espaguete de piscina, potes e tampas diversos, objetos de diferentes tamanhos e texturas, instrumentos musicais pequenos, penas, entre outros objetos disponíveis para brincar. Os mordedores e miniaturas de animais estavam em cada canto. A paixão por chinelos dos adultos foi logo demonstrada ao começarem a engatinhar, além dos controles remotos.
A dimensão corporal deve integrar-se às atividades cotidianas da criança, pois, são ações de rico potencial e trocas afetivas, muito diferentes das formas mecânicas de estimulação do corpo do bebê que proporcionam uma condição passiva e inibem o potencial que as brincadeiras podem ter.
Nossa experiência e conhecimento costurados com muita delicadeza e afeto permitiram viver esses dias com leveza, apesar do inevitável cansaço físico provocado pelo senta, agacha, levanta, dança. Eram dias com rotinas bem parecidas, mas que continham novos aprendizados e histórias novas para contar!
Olhe o que separamos para você
“(..) A oferta de objetos e a organização dos espaços são elementos importantes para a movimentAÇÃO e explorAÇÃO do corpo que corresponderá às oportunidades a serem vivenciadas e apreendidas. (…) À medida que o desenvolvimento avança, os movimentos vão se aperfeiçoando e a criança vai percebendo diferentes formas de estar no mundo e de comunicar-se, sendo o andar e a fala um salto qualitativo na primeira infância, é uma nova fase, a de investigAÇÃO do espaço e dos objetos que nele se encontram. Além é claro, de uma maior autonomia e independência. (…) Ao experienciar seus movimentos, seja consigo mesmo ou na interação com o ambiente, a criança vai construindo uma consciência corporal. Ela passa a perceber/conhecer seu corpo como uma unidade e um meio de interação com objetos, pessoas e o mundo ao seu redor.” – MovimentAÇÃO, A Expressão Corporal na Infância, texto do Coletivo Cais publicado no blog em 2025 – MovimentAÇÃO – A Expressão Corporal na Infância – COLETIVO CAIS