

O movimento é uma dimensão fundamental da cultura humana. Nos movimentamos já na vida intrauterina.
Após o nascimento, os bebês se movimentam primeiro de forma reflexa e depois de forma intencional tanto para adquirir controle sobre seus corpos, como para expressar-se. Assim, o corpo passa a ser um meio importante para ampliar suas possibilidades de interação com o mundo e de comunicação com as pessoas ao seu redor.
Ao observar o bebê explorar e conhecer seu corpo, percebe-se como ele vai aprendendo a ampliar seus limites quando puxa, aperta, solta, empurra, se arrasta, se estica ou se encolhe, se aproxima ou se afasta, gira o corpo, etc., e, progressivamente conquistar todas as suas potencialidades motoras.
Os pressupostos teóricos de Wallon e Pikler, nos ajudam a compreender melhor o ato de movimentar-se e seus desdobramentos na vida do bebê e de seu desenvolvimento. Então, vamos à eles!
Henri Wallon (1879-1963)
Para Wallon, o movimento tem uma função expressiva no primeiro ano de vida. A interação entre o bebê e os adultos se dá por uma intensa troca afetiva comunicada por gestos e expressões faciais. Destaca-se aqui o elo entre a afetividade e a socialização com as pessoas com as quais convive.
Mais tarde, o movimento passa a ter outra função: conhecer e explorar os objetos e o meio no qual vive, ou seja, o movimento passa a ser articulado ao pensamento. Por exemplo, o desejo de pegar um objeto faz com que o bebê se rasteje ou role para alcançá-lo; assim o desenvolvimento cognitivo (ação mental) desencadeia os atos motores (ação corporal).
Observe que as dimensões afetiva e cognitiva se alternam, ora prevalecendo mais uma que a outra, porém, a dimensão motora (o movimento) sempre estará presente no decorrer da vida. Afinal, o ser humano está em um contínuo processo de desenvolvimento, onde as partes não se fragmentam, mas se constituem em seu conjunto na integralidade.
Assim, a oferta de objetos e a organização dos espaços são elementos importantes para a movimentAÇÃO e explorAÇÃO do corpo que corresponderá às oportunidades a serem vivenciadas e apreendidas.
Wallon ressalta que o bebê estabelece uma relação de comunicação com o meio por intermédio de movimentos corporais que garantem a sua aproximação do outro e a satisfação de suas necessidades. Portanto, nessa fase inicial do desenvolvimento infantil, a linguagem corporal auxilia na expressão de sentimentos de bem estar e mal estar. É preciso estar atento para entender o que o bebê está dizendo!
À medida que o desenvolvimento avança, os movimentos vão se aperfeiçoando e a criança vai percebendo diferentes formas de estar no mundo e de comunicar-se, sendo o andar e a fala um salto qualitativo na primeira infância, é uma nova fase, a de investigAÇÃO do espaço e dos objetos que nele se encontram. Além é claro, de uma maior autonomia e independência.
Emmi Pikler (1902-1984)
Para Pikler, o amadurecimento harmônico da criança passa pela conquista da autonomia de seus movimentos que está ligada diretamente ao desenvolvimento cognitivo. Um depende do outro: movimento, interação, sentimento e cognição.
O que isso significa? Ao experienciar seus movimentos, seja consigo mesmo ou na interação com o ambiente, a criança vai construindo uma consciência corporal. Ela passa a perceber/conhecer seu corpo como uma unidade e um meio de interação com objetos, pessoas e o mundo ao seu redor. Já percebeu isso ao observar bebês e crianças?
Essa abordagem é pautada em três princípios básicos que orientam o desenvolvimento dos bebês e crianças e são interdependentes: movimento livre, afetividade e autonomia.
Para Pikler a educação é pautada no movimento livre e o papel do adulto é manter o bebê e a criança em segurança e estabelecer um vínculo de confiança incentivando-os naquilo que desejam fazer. Quanto mais eles brincam livremente e exploram as possibilidades do seu corpo, maior será o tempo de concentração naquilo que querem fazer. Um corpo ativo é um corpo que aprende.
Nesse sentido, a organização dos espaços para os pequenos deve promover o brincar e o mover-se livremente, sem regras rígidas, objetivos específicos ou a busca de resultados imediatos. É importante permitir que bebês e crianças descubram suas habilidades sozinhos. Brincadeiras como escalar, pular, dançar, correr, rolar ou simplesmente explorar objetos e texturas com o corpo, são bons exemplos do que proporcionar para eles.
Esperamos ter evidenciado por que o movimento é uma área tão importante na primeira infância: Movimento é Expressão, é Ação!
Olhe que separamos para você
Henri Wallon (1879-1963), filósofo, médico e psicólogo, estudioso da educação e, principalmente, da educação infantil, que ficou conhecido por sua teoria psicogenética. Wallon enfatiza a importância do movimento como uma forma de expressão emocional e social. Para ele, a motricidade está profundamente ligada ao desenvolvimento afetivo da criança, sendo um meio de comunicação e interação com o outro. Assim, a liberdade de movimento contribui para o desenvolvimento de relações interpessoais e para a construção da identidade da criança. ASSIS, Letícia Alexandra; OLIVEIRA, Guilherme Saramago; SANTOS, Anderson Oramísio. As contribuições da teoria de Henri Wallon para a educação. Cadernos da Fucamp V. 21 n.52. 2002. Disponível em: https://revistas.fucamp.edu.br/index.php/cadernos/issue/view/174. Acesso em 08/06/2025.
Emmi Pikler (1902-1984), médica pediatra, autora e conferencista húngara conhecida por sua abordagem revolucionária no cuidado de bebês e crianças pequenas. Essa abordagem nasce não só dos conhecimentos de Pickler enquanto médica pediatra, mas da experiência com sua filha e com o Instituto Lóczy. “A abordagem Pikler é pautada em três princípios básicos que orientam a educação das crianças e dos bebês. 1.Movimento livre: o movimento livre é o desenvolvimento da consciência motora sem a mediação de um adulto, que deve apenas garantir a segurança da criança para que ela se movimente livremente. 2.Afetividade: a afetividade está relacionada ao vínculo do cuidador com o bebê, estabelecido durante a rotina e os cuidados do dia a dia. A atenção e o cuidado recebidos são essenciais para que esse bebê desenvolva confiança e aprenda a se relacionar com as pessoas e objetos. Assim, a criança adquire confiança e responsabilidade por suas ações, participando ativamente de suas atividades, com a segurança que recebeu e desenvolveu. 3.Autonomia: através da autonomia os bebês podem explorar o ambiente e descobrirem sozinhas suas habilidades, interagindo com seus semelhantes de maneira espontânea e natural.” ALMEIDA, O. A., & MELIM, A. P. G. (2019). A abordagem de Emmi Pikler: olhares sobre contextos educativos para bebês e crianças pequenas. Revista Entreideias: Educação, Cultura e Sociedade, 8(2). Disponível em https://periodicos.ufba.br/index.php/entreideias.
GRUSS, Liliana. ROSEMBERG, FRANCIS. Bebés en movimiento, el desarrollo postural en imágenes. Ed. Continente. 2016.
GRUSS, Liliana. ROSEMBERG, FRANCIS. Los ninõs y el juego, La actividad lúdica de 0 a 5 años. 2017.
MAHONEY, A.A. e ALMEIDA, L.R. (orgs.). Henri Wallon. Psicologia e Educação. Edições Loyola.2012